O dólar comercial fechou a sexta-feira (30) cotado entre R$ 5,444 e R$ 5,446, encerrando a semana com valorização de 9,03% a 9,15% — o maior avanço semanal da moeda americana desde outubro de 2008. A disparada ocorreu na semana seguinte à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após parte do mercado financeiro ter apostado em outro resultado eleitoral.
Durante a sessão, o dólar chegou a bater R$ 5,463 na máxima do dia, antes de recuar levemente ao fechamento. No mês de outubro, a moeda acumulou avanço de 5,27% a 5,31%. No ano, a valorização chegou a 0,81%.
Dólar pós-eleição: mercado desfaz posições e câmbio dispara
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou o movimento como esperado. Segundo ele, “a reação do mercado foi uma correção de posições” — consequência direta do resultado das urnas. Durigan afirmou ainda que “os investidores haviam precificado uma vitória de Flávio Bolsonaro e o resultado das urnas provocou uma mudança nas apostas do mercado financeiro”.
A analista de renda variável da Rico, Bruna Sene, descreveu o mesmo processo por outro ângulo. Para ela, “o mercado desfez as posições construídas nas últimas semanas e agora volta a montar seu cenário a partir das informações que virão.” Sene avaliou que a trajetória do câmbio depende de sinais fiscais concretos: “o fator decisivo continua sendo a queda dos juros de longo prazo, e isso depende de previsibilidade fiscal, com regras claras e duradouras. Enquanto essas definições não vierem, a volatilidade deve seguir elevada”.
Além do cenário político interno, a sessão de sexta-feira foi pressionada pela queda das ações de tecnologia em Nova York, que amplificou a instabilidade no câmbio brasileiro.
Bancos revisam projeções e apontam dólar acima de R$ 5,50
Com o novo patamar cambial, grandes instituições financeiras revisaram suas estimativas. Veja as projeções divulgadas:
- JPMorgan: chegar a R$ 5,50 nas próximas semanas
- UBS: R$ 5,40 como primeiro nível de referência
- Morgan Stanley: alta em etapas para R$ 5,50, depois R$ 5,60-R$ 5,70, podendo se aproximar de R$ 6
- BTG: desvalorização do real entre 10% e 15% nas semanas pós-eleição
Cenários mais severos também circulam entre analistas. O BTG projeta desvalorização do real entre 10% e 15% nas semanas seguintes à eleição. O Morgan Stanley traça uma trajetória em etapas: primeiro R$ 5,50, depois uma faixa entre R$ 5,60 e R$ 5,70, com possibilidade de aproximação de R$ 6 caso a incerteza fiscal se aprofunde. Em alguns cenários analisados pelo mercado, os juros futuros de longo prazo superam 15%.
PIB e inflação de 2027 no centro das preocupações
O impacto sobre a economia real preocupa analistas. André Matos, CEO da MA7 Capital, projeta que “o investimento produtivo poderá crescer entre 0% e 1% em 2027, ou até recuar se a incerteza persistir. O crescimento econômico, anteriormente projetado em 1,3%, poderia ficar abaixo de 1%”. Matos acrescenta que a depreciação contínua do real “pode acrescentar de 0,4 a 0,8 ponto percentual ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de 2027”.
André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, estima que “a deterioração das condições financeiras poderia retirar de 0,3 a 0,6 ponto percentual do crescimento do PIB. A inflação acumulada até 2028 poderia receber um acréscimo de 0,3 a 0,7 ponto percentual em um cenário de câmbio persistentemente depreciado”.
O encarecimento de insumos importados, máquinas e financiamentos, decorrente da desvalorização cambial, está no centro das preocupações para 2027. O próximo dado relevante para o mercado está previsto para 2 de novembro.

