Em vez de deixar cada devedor negociar individualmente com o banco, o Governo Federal vai comprar as carteiras de dívidas diretamente das instituições financeiras. É essa a principal mudança do Desenrola 3.0, lançado nesta segunda-feira (28) com a meta de renegociar até R$ 150 bilhões em débitos e alcançar cerca de 15 milhões de famílias em todo o Brasil.
O programa foca em dívidas com atraso entre 2 e 4,5 anos — débitos que, na prática, ficaram parados por tempo demais para que as famílias conseguissem resolver por conta própria. O valor original de cada operação elegível é de até R$ 10 mil, e as modalidades contempladas no primeiro lote são cartão de crédito e empréstimo pessoal sem consignação. Lotes seguintes devem incluir dívidas não bancárias, como contas de energia, água, telefonia e varejo.
Como funciona o Desenrola 3.0 e quem pode ser beneficiado
O mecanismo central do programa é um leilão conduzido pelo Tesouro Nacional ou por instituição financeira federal — como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Os credores que oferecerem os maiores descontos vencem a disputa. O deságio mínimo exigido é de 90%, o que significa que o governo pagará, no máximo, 10% do valor original da dívida.
Todo o desconto obtido nos leilões será repassado integralmente aos devedores. Quem for beneficiado poderá quitar o saldo restante à vista ou parcelá-lo, com juros a serem fixados pelo Conselho Monetário Nacional.
O custo fiscal máximo estimado para a União é de R$ 15 bilhões, montante que será previsto nos Projetos de Lei Orçamentária Anual de 2027 e 2028. O estoque total de dívidas elegíveis no país é estimado em R$ 300 bilhões; o programa pretende cobrir metade disso.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o modelo ao comparar o Desenrola 3.0 com as edições anteriores: “É um Desenrola melhor do que os outros Desenrola. É importante notar isso porque, no outro Desenrola, as pessoas tinham que individualmente procurar o banco [para negociar]. Agora, é o governo que vai comprar dívida e vai acertar a vida das pessoas.”
O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, detalhou o funcionamento: “Em vez da gente criar um processo no qual cada pessoa, cada membro da família vai até o banco tentar renegociar sua própria dívida, aqui nós temos o Estado brasileiro, o governo federal fazendo aquisição de carteiras de dívidas das instituições financeiras. Estamos falando de limpar dessa carteira R$ 150 bilhões em dívidas; é muito forte, muito potente para que essas famílias possam recomeçar.”
Diferenças entre as edições do programa Desenrola
O Desenrola 3.0 é a terceira fase de um programa iniciado em 2023. As edições anteriores exigiam que os devedores procurassem as instituições financeiras por conta própria. Veja o comparativo entre as versões:
- Desenrola 1.0 (2023): Renegociou R$ 53 bilhões em dívidas e atendeu 15 milhões de pessoas de baixa renda.
- Desenrola 2.0 (Maio/2026): Foco em renda até 5 salários mínimos, uso do FGTS, dívidas de 90 dias a 2 anos.
- Desenrola 3.0 (Setembro/2026): Compra direta de dívidas antigas (2 a 4,5 anos de atraso) pelo Estado.
A Federação Brasileira de Bancos avaliou positivamente a iniciativa: “Recebemos de forma positiva o Desenrola 3.0, anunciado pelo governo, por ser um programa de adesão voluntária, que respeita as características de mercado, e direcionado a mitigar um cenário adverso de dívidas com elevado tempo de atraso. A medida poderá ampliar seu alcance, acelerar a desalavancagem e reduzir o nível de endividamento das famílias.”
Cronograma de execução do Desenrola 3.0
Veja as etapas previstas para o programa:
- Setembro/2026: Publicação da Medida Provisória
- Novembro/2026: Publicação do edital e chamamento público
- Dezembro/2026: Submissão de propostas de deságio pelos credores
- Janeiro/2027: Homologação e seleção das propostas
- Fevereiro/2027: Assinatura de contratos e início do repasse dos descontos

