O Brasil fechou agosto de 2026 com três recordes simultâneos: 82% das famílias endividadas, 84 milhões de adultos com o nome negativado e uma Dívida Pública Federal de R$ 9,29 trilhões. Os números, levantados por diferentes fontes oficiais, mostram um quadro em que as dívidas crescem mais rápido do que a renda — e que afeta diretamente o orçamento de famílias no Piauí, no Maranhão e em todo o país.
Endividamento Brasil bate recorde pelo sétimo mês seguido
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo manteve o índice de famílias endividadas em 82% em agosto — o mesmo patamar dos seis meses anteriores, mas ainda assim o mais alto da série histórica. Outros 29,9% das famílias estavam com contas em atraso. Desse grupo, 12,5% declararam não ter condições de quitar as dívidas.
O valor médio devido por pessoa negativada chegou a R$ 7.050. Para ter uma dimensão do que isso representa: desde o início de 2021, a dívida média por pessoa cresceu 81%, enquanto o salário médio subiu 51% no mesmo período. As dívidas, em outras palavras, correram na frente.
A taxa de inadimplência no segmento de crédito com recursos livres atingiu 6,6% — o maior nível já registrado pelo Banco Central do Brasil desde o início de sua série histórica, em março de 2011. A carteira total de crédito do Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 7,4 trilhões, com juros médios no crédito livre de 48,5% ao ano. Quem tem dívida bancária compromete, em média, 26,6% da renda familiar só com parcelas e juros.
Reincidência domina as novas negativações
Dos brasileiros que entraram para os cadastros de devedores em agosto, 86,72% já tinham sido negativados antes. O dado é da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil.
Para José César da Costa, presidente da CNDL, o fenômeno tem explicação no cotidiano: “A expressiva reincidência na inadimplência evidencia a profunda dificuldade do brasileiro em manter as contas em dia e equilibrar o orçamento doméstico. Frequentemente, mesmo com ocupação e renda, o custo de vida e as despesas cotidianas superam os ganhos, fazendo com que o orçamento se desorganize rapidamente e resultando em acordos de renegociação que, na prática, não conseguem ser cumpridos.”
Roque Pellizzaro Júnior, presidente do SPC Brasil, avaliou que “o retorno constante aos cadastros de devedores demonstra que a estabilidade financeira é frágil e que a renda familiar muitas vezes não acompanha o ritmo dos gastos. Esse cenário reforça a urgência e a necessidade de um rigoroso controle de gastos e planejamento financeiro, evitando que o consumidor caia em um ciclo contínuo de novas dívidas e negociações frustradas.”
Isabela Tavares, economista da Tendências Consultoria, resumiu o paradoxo: “Temos alta inadimplência com juros e inflação elevados. A renda cresce, mas, de um lado, as pessoas não conseguem comprar as mesmas coisas e, de outro, não pagam seus débitos. É um cenário muito difícil.”
Flávia Marimpietri, professora da Faculdade Baiana de Direito, apontou uma prática que agrava o problema: “Muitos bancos oferecem empréstimos sem olhar a capacidade das pessoas e elas usam o cartão de crédito para cobrir o custo do mês ou pegam uma dívida para pagar outra.”
Desenrola encerrou com 9 milhões de famílias atendidas
O programa Desenrola Brasil chegou ao fim em agosto tendo renegociado dívidas de 9 milhões de famílias. O Governo Federal sinalizou que estuda novas medidas para o problema do endividamento.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que “o Desenrola foi uma primeira vacina e, como o problema do endividamento ainda está presente, vamos seguir pensando em novas vacinas para que as pessoas virem a página.”
Lucas Tosati, especialista da Serasa em educação financeira, avaliou que “o programa ajudou e as renegociações também cresceram muito. Se não fosse por isso, a situação estaria ainda pior.”
Para Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban, “é difícil imaginar uma resolução para o problema do endividamento que não passe por uma mudança radical no cenário macroeconômico, com ajuste fiscal.”
Dívida pública ultrapassa R$ 9,29 trilhões
A Dívida Pública Federal chegou a R$ 9,29 trilhões em agosto de 2026 — o maior valor já registrado. O Tesouro Nacional incorporou R$ 88,39 bilhões em juros ao estoque da dívida no mês, valor que superou o resgate líquido de R$ 84,43 bilhões. A Dívida Bruta do Governo Geral ficou em 82,5% do PIB.
Helano Borges Dias, coordenador-geral de Operações da Dívida Pública do Tesouro Nacional, fez uma ressalva sobre a comparação histórica: “É o maior valor registrado na composição histórica. Agora vou fazer uma ressalva. Em momentos do começo da década de 2000 quando a gente começou a observar esses valores semelhantes, a gente tinha uma participação muito grande de dívida cambial. Eu diria que os outros 50% da dívida tem uma composição muito melhor do que aqueles outros 50% do passado.”
Sobre o horizonte fiscal, Dias afirmou que “olhando para frente, a expectativa é que a gente possa retornar a fazer superávit primários que é a condição estrutural mesmo para que a gente consiga reduzir a participação de flutuante na composição da dívida.”
O Tesouro Nacional projeta que a Dívida Pública Federal termine 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.

