A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou nesta segunda-feira (12) as primeiras diretrizes globais para o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. O documento veta medicamentos e cirurgia bariátrica para menores de 10 anos e coloca alimentação saudável, atividade física e apoio familiar como pilares centrais do tratamento da obesidade infantil.
Os números por trás da decisão são expressivos. Em 2024, a taxa de obesidade entre jovens chegou a 8% — quatro vezes o índice registrado em 1990, quando era de 2%. Hoje, 170 milhões de crianças e adolescentes vivem com obesidade no mundo.
O que as diretrizes da OMS dizem sobre o tratamento da obesidade infantil
Para crianças com menos de 10 anos, a OMS descarta qualquer uso de fármacos ou procedimentos cirúrgicos. O foco recai inteiramente sobre mudanças de comportamento, com atenção especial à rotina familiar e à saúde mental.
Para adolescentes entre 10 e 19 anos, o caminho é diferente — mas igualmente restrito. O uso de medicamentos pode ser considerado, desde que o jovem já tenha passado por pelo menos seis meses de intervenção no estilo de vida sem resultado satisfatório. A cirurgia bariátrica também entra como opção apenas nessa faixa etária, sob condições específicas.
Luz María De Regil, diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS, foi direta ao explicar a lógica das recomendações: “A base do tratamento da obesidade em crianças e adolescentes não é o medicamento nem a cirurgia, mas o acesso a um apoio abrangente que permita alimentação saudável, atividade física e mudanças sustentáveis de comportamento.”
Canetas emagrecedoras: o que muda no Brasil
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autoriza o uso das chamadas “canetas” emagrecedoras em adolescentes maiores de 10 anos — mas exclusivamente para o tratamento de diabetes tipo 2, não para obesidade.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reforça a necessidade de cautela. O pediatra Paulo Telles, da entidade, lembra que o objetivo dos medicamentos é tratar uma doença crônica, não atender a uma demanda estética: “São medicamentos para tratar a obesidade, uma doença crônica, e não para perder alguns quilos por estética. Precisamos parar de associar obesidade à falta de força de vontade e de esperar que as complicações apareçam para oferecer cuidado.”
O uso indevido dessas substâncias pode provocar déficit de crescimento, pancreatite e transtornos alimentares.
Família no centro do cuidado
Elisabeth Fernandes, também pediatra da SBP, chama atenção para o papel da casa no tratamento: “Não basta cobrar que a criança mude enquanto a rotina da casa permanece igual. A família precisa participar, com atenção à alimentação, ao sono, às telas e às oportunidades de brincar e se movimentar.”
A visão é compartilhada pelo pediatra Nelson Ejzenbaum, que resume a abordagem de forma mais direta: “Quer resolver um problema? Começa tirando os ultraprocessados de casa. Abre seu armário, olha o que tem lá dentro. Tira tudo que for porcaria… Comece uma alimentação saudável e bota ele para fazer exercício físico.”
Liliana Sousa, bastonária da Ordem dos Nutricionistas em Portugal, faz um alerta sobre os riscos de apostar apenas nos medicamentos: “De nada nos adiantará resolver a obesidade com canetas se, à custa disso, formos construir uma população igualmente doente e incapaz.”
