Natural da Comunidade Quilombola Saco Curtume, em São João do Piauí, Crisleia Rodrigues concluiu a graduação em Direito em 2024 e recebeu a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil em agosto deste ano. A Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas a reconhece como a primeira advogada quilombola do Piauí.
Ela tinha 28 anos quando a carteira chegou. Para chegar até ali, trabalhou como auxiliar de cozinha e babá ainda jovem, em Picos, onde cursaria Direito anos depois.
A advogada quilombola de São João do Piauí e o caminho até a OAB
O ingresso na faculdade, no fim de 2018, veio por meio de um projeto de bolsas de estudo idealizado pela liderança quilombola Nêgo Bispo e viabilizado por uma empresa do setor de energia como contrapartida pelo arrendamento de áreas. Crisleia se mudou para Picos para cursar Direito. O filho tinha menos de um ano de vida.
Na faculdade particular, o ambiente não foi simples. “Era uma faculdade particular. Enfrentamos muito preconceito. Nos olhavam como se fôssemos incapazes. Ser quilombola e vir de escola pública era algo que incomodava algumas pessoas. Persistimos porque a vontade de vencer foi maior”, relatou.
A pressão dos anos de graduação ficou marcada. “Tive que estudar o triplo para vencer um sistema que, na maioria das vezes, é injusto. Engolir o choro foi necessário por diversas vezes. A batalha foi vencida na ponta da caneta”, disse Crisleia.
O momento de receber a carteira da OAB também ficou gravado. “No dia em que recebi a minha carteira, passou um filme pela minha cabeça. Era a oportunidade da minha vida, mas precisei abrir mão de muitos momentos ao lado do meu filho para seguir esse caminho”, afirmou.
Hoje, Crisleia atua em escritório próprio instalado na Comunidade Quilombola Saco Curtume, onde cresceu.
