Quinze trabalhadores do Piauí foram atraídos para São Paulo com promessa de emprego na colheita de milho e acabaram abandonados em alojamentos precários na cidade de Ipuan, sem dinheiro para voltar para casa. O caso é investigado pelo Ministério Público do Trabalho como trabalho análogo à escravidão.
Segundo os trabalhadores, o empreiteiro entrou em contato por telefone ainda em junho, prometendo de dois a três meses de serviço na safra de milho. Eles arcaram com os custos da viagem com dinheiro emprestado. Ao chegar a Ipuan, encontraram uma realidade diferente da prometida. Um deles relatou: “Chegando aqui, a realidade foi completamente diferente do que ele prometeu.”
Trabalhadores piauienses explorados: um mês sem trabalho e sem retorno
Há cerca de um mês em Ipuan, os 15 piauienses — dez num alojamento e cinco em outro — recebem apenas duas refeições por dia. Produtos de higiene não estão disponíveis. “A gente veio para trabalhar, ganhamos dinheiro e retornar para casa. Mas essa promessa ficou só na promessa”, disse um dos trabalhadores.
A situação financeira é crítica. Sem trabalhar desde que chegaram, eles acumularam dívidas e não têm como pagar a volta. “Porque todo mundo vem com dinheiro emprestado lá do Piauí e a pessoa comer sem trabalhar não é fácil também, né? Sem trabalhar, sem dar um prego em nada aqui”, relatou outro trabalhador. As famílias que ficaram no Piauí também enfrentam dificuldades.
O empreiteiro, cuja identidade não foi divulgada pela reportagem do Balanço Geral, chegou a visitar os alojamentos para comunicar o fim das atividades. “Olha, não vai ter mais trabalho. Se vocês quiserem retornar então para o Piauí, podem voltar então para as suas casas”, teria dito, segundo relato dos trabalhadores. A declaração gerou revolta. “Um pouco constrangido, sabe? Porque assim, ele fez uma promessa que a gente ficou todo mundo achando que ia dar certo. Então, quando ele chegou ao ponto de falar que a gente podia se virar, a gente fica muito constrangido com esse tipo de gente”, disse um dos piauienses.
MPT investiga e prefeitura de Ipuan reúne partes
Nesta quarta-feira (5), assistentes sociais e uma psicóloga estiveram nos alojamentos para atender os trabalhadores. Mais cedo, a Prefeitura de Ipuan convocou uma reunião com representantes do Ministério Público do Trabalho, a procuradora do município e o próprio empreiteiro para discutir encaminhamentos.
O Ministério Público do Trabalho investiga o caso como trabalho análogo à escravidão. “Era para ter a carteira assinada. Até hoje ninguém sabe o que é isso, não tem nada. A gente pegou o dinheiro emprestado para vir para cá, pensando que ia conseguir o serviço”, afirmou um dos trabalhadores. “Só dívida. Um mês e um dia faz hoje que a gente tá aqui nesse sofrimento”, completou outro.
