A proposta de extinção da escala de trabalho 6×1 pode elevar os custos operacionais das empresas brasileiras entre 5% e 10%, com risco de repasse aos preços e pressão inflacionária. O alerta é do professor de economia da Fundação Getúlio Vargas Alberto Ajzental, que avalia o impacto da mudança de forma desigual entre grandes e pequenos negócios. A análise foi feita em entrevista ao SBT News nessa quinta-feira (15).
Fim da escala 6×1 e os impactos na economia brasileira
Para Ajzental, o problema central está na capacidade de adaptação. Empresas com milhares de funcionários conseguem redistribuir equipes internamente. Já os pequenos negócios não têm essa margem. Mais de 80% a 90% das empresas brasileiras são pequenas, segundo o Sebrae — e são exatamente elas que concentram a maior parte dos empregos formais no país.
“Aquelas empresas maiores, com milhares de funcionários, vão conseguir remanejar de certa forma as suas equipes. Já as empresas menores terão uma dificuldade muito maior, porque não têm pessoal extra para fazer esse remanejamento”, disse o professor.
O custo extra tem origem direta na redução de carga horária. Com a proposta, a jornada cairia das atuais 44 horas semanais para 42 e, em seguida, para 40 horas — mantendo os salários. Para cobrir o mesmo volume de trabalho, as empresas precisariam contratar mais funcionários. “Se a escala mudar e a carga horária cair de 44 para 42 e depois 40 horas semanais mantendo o salário, há um aumento de custo entre 5% e 10%, pois será preciso mais gente. Repassar esse custo para o preço gera inflação, principalmente em setores de trabalho intensivo”, explicou Ajzental.
Outra frente de impacto apontada pelo professor envolve contratos de terceirização. Serviços como coleta de lixo, limpeza e manutenção em shoppings — comuns tanto no setor público quanto no privado — foram negociados com tabelas de preço fixas. Com a nova regra, as prestadoras precisariam ampliar o quadro de pessoal para cumprir os mesmos horários, o que abre caminho para disputas sobre reequilíbrio de contratos.
Para as microempresas, o cenário é mais grave. “As microempresas terão problemas inclusive de sobrevivência. A maioria das empresas brasileiras já está sem capital e endividada, então esse custo extra trará grandes complicações para os próximos anos”, afirmou o professor da FGV.
Ajzental também avalia como inviável, no momento, qualquer compensação via isenção fiscal. Segundo ele, o governo enfrenta uma situação fiscal apertada, com crescimento da dívida pública em relação ao PIB. Reduzir impostos sem corte de despesas agravaria o desequilíbrio das contas públicas.
O mercado de trabalho aquecido adiciona outra camada de dificuldade. Com taxa de desocupação em torno de 5% — índice historicamente baixo —, demitir funcionários para tentar recontratações mais baratas seria arriscado. “Pela legislação, você não pode demitir alguém de um cargo e recontratar outra pessoa para a mesma função pagando menos. As empresas poderiam tentar reestruturar nomes de cargos, mas com o mercado de trabalho aquecido e escasso, demitir um bom funcionário para tentar achar outro mais barato pode ser um ‘tiro no pé'”, disse Ajzental.
Segundo ele, empresas que operam em regime contínuo — 24 horas por dia, sete dias por semana — terão ainda mais dificuldade de adaptação. Para esse perfil de negócio, uma das saídas possíveis seria reduzir dias ou horários de funcionamento, o que afetaria diretamente a oferta de serviços. “Segundo o Sebrae, mais de 80% a 90% das empresas são pequenas, com poucos funcionários, mas empregam mais de 80% da população. São justamente essas pequenas empresas que mais vão sofrer com as novas regras”, concluiu o professor.
