Um levantamento do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, identificou oito exoplanetas com condições físicas e orbitais compatíveis com a presença de água líquida e, potencialmente, vida. O estudo, apresentado neste sábado (19) na 6ª edição do evento Astrobion, partiu de um banco de dados da NASA com mais de 6 mil exoplanetas catalogados.
O destaque é o GJ 1002b, que atingiu 98% de similaridade com a Terra nos critérios avaliados. O exoplaneta orbita uma estrela anã-vermelha, está a 16 anos-luz daqui e tem massa estimada em 1,08 vez a massa terrestre. Uma volta completa ao redor de sua estrela dura apenas 10,3 dias.
Como os exoplanetas habitáveis foram selecionados
O cientista Fábio Calabrio Evangelista da Silva, responsável pelo levantamento, filtrou os corpos celestes com base em três critérios principais: raio, densidade e posição orbital em relação à estrela-mãe. Apenas planetas dentro da chamada zona de habitabilidade — nem próximos demais, nem distantes demais da estrela — passaram pelo filtro.
“A zona de habitabilidade é uma zona que possibilita a água líquida porque não é nem tão quente, mais próximo da estrela, e nem tão frio, para longe da estrela. Então é a zona perfeita”, explicou o cientista. “A Terra é o único exemplo que a gente vai ter, por enquanto, para se definir vida, para se definir quais são as características necessárias para se ter água líquida.”
O professor Marcelo Borges Fernandes, também envolvido no estudo, ponderou que a busca por mundos semelhantes à Terra não esgota as possibilidades. “A gente está buscando um planeta que tenha condições similares à Terra. Mas isso não quer dizer que seja o único lugar possível de ter vida no universo, porque podem existir outras formas de vida que a gente ainda não conheça e que precisem de características químico-físicas diferentes”, disse.
Cautela com bioassinaturas atmosféricas
Detectar sinais de vida a partir da atmosfera de um exoplaneta — as chamadas bioassinaturas — é um dos maiores desafios da astrobiologia. Fernandes alertou para os riscos de interpretações precipitadas. “A gente tem que ter sempre muito cuidado para analisar isso e comparar com o único exemplo que a gente tem, que é a Terra, para saber se a única explicação seria uma fonte de vida ou se pode ser de fontes geológicas ou atmosféricas não ligadas à vida”, afirmou.
O pesquisador José Aponte, do Laboratório Analítico de Astrobiologia da NASA, elencou três linhas de evidência que considera essenciais para confirmar a presença de vida:
- Repetição de Moléculas: Constatação consistente da mesma substância.
- Predominância de Quiralidade: Identificação de moléculas espelhadas de mesma configuração.
- Análise Isotópica: Presença preferencial de isótopos leves.
Missões da NASA no Sistema Solar
Enquanto o olhar científico se volta para exoplanetas distantes, a NASA já tem missões em andamento e planejadas para investigar a possibilidade de vida dentro do próprio Sistema Solar. Veja o calendário:
- Europa Clipper: Lançamento em outubro de 2024, chegada prevista para 2030 à lua Europa, de Júpiter.
- Dragonfly: Lançamento previsto para 2028, chegada em 2034 à lua Titã, de Saturno.
Desde 1992, quando os primeiros exoplanetas foram confirmados, o número de corpos catalogados chegou a 5.500. Estimativas científicas apontam que apenas a Via Láctea abriga cerca de 100 bilhões de planetas.

