A expansão da educação integral no Brasil pode gerar avanços reais na aprendizagem e na proteção social — mas apenas se vier acompanhada de investimentos em infraestrutura, formação de professores e equipes de apoio. Este editorial apenas alerta para os riscos de ampliar a jornada escolar sem garantir as condições mínimas para que o modelo funcione.
Estudos apontam ganhos de até 20 pontos na escala do Saeb em redes que implementaram o modelo com qualidade. O número, porém, contrasta com o que acontece no cotidiano de muitas escolas brasileiras.
Professores brasileiros gastam mais tempo com disciplina do que a média internacional
Dados da pesquisa Talis, divulgada pela OCDE em 2024, mostram que professores no Brasil gastam mais de 20% do tempo de aula para manter a ordem em sala. A média internacional é de 16%. Mais da metade dos docentes relatam enfrentar barulho perturbador e desordem com frequência.
Portanto, ampliar o horário escolar sem mudar as condições de trabalho e de aprendizagem tende a resultar em alunos exaustos e professores sobrecarregados — sem ganhos reais na qualidade do ensino.
Condições essenciais
A educação em tempo integral deve ser tratada como política de Estado. Para isso, aponta três condições que considera indispensáveis para a qualidade do modelo:
- infraestrutura adequada, incluindo refeitórios, quadras, bibliotecas e espaços de descanso (Ausência de refeitórios, quadras, bibliotecas, espaços de descanso e materiais didáticos eleva o estresse e dificulta a condução de atividades que exigem movimento e interação, favorecendo a indisciplina.)
- formação continuada específica para o modelo integral (Muitos professores não recebem formação continuada para lidar com currículo integrado, metodologias ativas e gestão de comportamento em jornadas ampliadas, o que os deixa despreparados para prevenir e mediar conflitos.)
- equipes de apoio compostas por psicólogos, orientadores e mediadores de convivência (Sem equipes de apoio (psicólogos, orientadores, mediadores de convivência), o professor acaba acumulando funções disciplinares e de cuidado, o que sobrecarrega e diminui o tempo efetivo de ensino)
Sem esses elementos, a ampliação do tempo na escola não muda a qualidade do ensino — apenas estende a permanência dos alunos no ambiente escolar.

