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“O Agente Secreto” – um drama cinematográfico brasileiro sobre valores familiares e a ditadura

A trama de “O Agente Secreto” pode parecer, à primeira vista, o roteiro de uma longa novela brasileira, mas este filme profundo e multifacetado não tem nada a ver com os melodramas televisivos. Trata-se de um mergulho visceral em um capítulo doloroso da história do nosso país e um prato cheio para reflexão por quem viveu ou conhece experiências semelhantes.

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O protagonista chega à cidade para buscar o filho e vasculha num arquivo local o único artefato que restou de sua falecida mãe – tudo isso enquanto se esconde das autoridades sob uma identidade falsa (a ação se desenrola durante os Anos de Chumbo da ditadura militar). Tendo essa linha narrativa como pano de fundo, o diretor Kleber Mendonça Filho tece as histórias de outros personagens que personificam aquela época difícil, adicionando toques surrealistas inesperados à narrativa.

Wagner Moura como Armando, o protagonista do filme "O Agente Secreto", drama ambientado no Recife de 1977.
Wagner Moura vive Armando, o protagonista em fuga no filme “O Agente Secreto”

O cinema adora rótulos. Por isso, “O Agente Secreto” já foi batizado de “thriller político”: tem tiroteio, sangue jorrando e a tensão do regime militar em 1977. Mas o filme abraça tanto o realismo escrupuloso quanto o grotesco e a fantasia. E ainda sobra espaço para referências cinéfilas, alusões políticas e uma recriação de época fascinante que dialoga com a modernidade.

No centro da trama estão os laços de família. Ou melhor, as rupturas. O protagonista, Armando, chega ao Recife para pegar o filho com os avós: a mãe do menino morreu há pouco tempo de pneumonia. Ao mesmo tempo, infiltrado no arquivo municipal, Armando espera encontrar a ficha de sua própria mãe, que ele não conheceu e de quem não restou nada além desse documento. Para ele, cada detalhe importa, até a hora exata do nascimento, sem a qual é impossível traçar um mapa astral ou encontrar alguém. Falando assim, a história pode soar como enredo de novela das oito, mas nada está mais longe dos dramalhões do que a estética contida e eclética de “O Agente Secreto”. É como se o diretor e roteirista controlasse suas emoções com o mesmo rigor de Armando – um ex-professor universitário transformado em dissidente perseguido.

Não existem “agentes secretos” clássicos no filme. O rótulo talvez coubesse melhor a Elsa (a atriz e apresentadora Maria Fernanda Cândido), que ajuda opositores a fugir e conseguir documentos. Mas, como ela é uma personagem coadjuvante, é mais fácil chamar o próprio Armando de “agente secreto”. Um intelectual pacífico que se recusa conscientemente a andar armado e mal consegue acreditar que agora precisa atender pelo nome de Marcelo e usar um passaporte falso. Essa é a única chance que ele tem de salvar a própria vida e sair do país com o filho. O nosso astro Wagner Moura (eterno Capitão Nascimento de “Tropa de Elite” e Pablo Escobar em “Narcos”) vive esse homem forçado a fingir, mas organicamente incapaz disso, como se o ascendente do personagem ditasse uma franqueza impossível de esconder atrás de documentos falsos. Foi essa entrega que lhe rendeu o prêmio de melhor ator em Cannes, fazendo os fãs correrem para analisar mapas astrais de celebridades na tentativa de desvendar seu magnetismo. O filme, aliás, também foi consagrado com o prêmio de direção e o prêmio da FIPRESCI.

A estratégia arriscada da direção nos ajuda a enxergar nos personagens não apenas funções do roteiro, mas gente de carne e osso. Para Armando, descobrir informações sobre a mãe e conviver com o filho vale mais do que as ameaças à sua segurança e até à sua vida; a família é a garantia da manutenção da humanidade num clima de alienação e paranoia.

Uma espécie de família de desajustados se forma com refugiados políticos de todo o canto, que encontram abrigo na casa da idosa Dona Sebastiana. Essa união pacífica de companheiros de infortúnio é frágil, uma Arca de Noé prestes a ser engolida pela tempestade do Carnaval que toma as ruas da cidade – que, na interpretação de Mendonça Filho, é uma força não de vida, mas de morte (com os jornais contando avidamente o número de vítimas durante os dias de folia).

Esse “carnaval” total é tecido com dor e medo cotidiano; por trás de qualquer máscara pode se esconder um assassino. Aqui, nada é o que parece. O refúgio para o sogro do protagonista, Alexandre, torna-se um antigo cinema onde ele trabalha como projecionista. Clássicos do terror americano como “King Kong”, “A Profecia” e “Tubarão” funcionam como um contraponto importante e uma rima para a trama principal – tornando-se uma saída de emergência desse beco sem saída. Assim como para os personagens, as inserções surrealistas são a forma de Mendonça Filho driblar a realidade insuportável. Dialogando com “Tubarão“, ele insere no filme uma trama absurda sobre uma perna humana presa nos dentes de um cação capturado. Roubada do IML por policiais corruptos e jogada no rio, a perna subitamente ganha vida e, espantando capivaras, ataca gays num parque noturno. Esse interlúdio parece não ter nada a ver com a seriedade do enredo principal e nada acrescenta à intriga, mas é fundamental para criar a atmosfera única da obra.

A mensagem final do autor soa extremamente sombria: não temos controle sobre as engrenagens sociais, e é quase impossível passar a perna ou domar a máquina de violência estatal. Resta esperar a mudança dos tempos, torcer por um trânsito planetário favorável e juntar documentos, revirando arquivos empoeirados.

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