Com R$ 17,3 bilhões em dívidas e um prejuízo de R$ 10,1 bilhões registrado entre abril e junho, o Grupo Casas Bahia recorreu ao Judiciário e formalizou pedido de recuperação judicial. A decisão, tomada em 2024, expõe a dimensão da crise que já havia levado ao fechamento de 298 lojas físicas e à redução de 1,9 mil postos de trabalho em todo o país.
O CEO da companhia, Renato Franklin, reconheceu que as mudanças feitas internamente não foram suficientes. “Nos últimos anos, fizemos um trabalho importante de transformação da companhia. Mas precisamos reconhecer que essa evolução, embora crucial, não foi suficiente diante de um cenário de crédito mais restritivo, juros elevados e consumo pressionado. A realidade mudou e, junto ao nosso Conselho de Administração, tomamos decisões para adequar a Companhia a essa nova realidade”, disse.
Para o futuro, Franklin traçou uma estratégia de enxugamento: “A estratégia daqui em diante é operar uma companhia menor, mais seletiva e concentrada nas atividades capazes de gerar retorno e caixa. Isso significa preservar as operações com maior capacidade econômica, adequar custos e investimentos ao novo nível de atividade, melhorar o giro de estoques e reduzir a necessidade de capital empregado.”
O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia não é caso isolado. O setor acumula crises: o Habib’s entrou em processo semelhante com dívida de R$ 265 milhões, e a Americanas enfrentou inconsistências contábeis reveladas em 2023, que resultaram em uma recuperação judicial de R$ 43 bilhões. O Grupo Pão de Açúcar, por sua vez, fechou 39 lojas em dois anos antes de buscar reestruturação extrajudicial.
Para Hugo Silveira, fundador e CEO do Grupo HRZ, os casos têm gatilhos distintos, mas uma raiz comum. Sobre o Pão de Açúcar, ele avaliou que “a estrutura dimensionada para um ciclo de juros que não existe mais” explica o movimento. Quanto à Americanas, Silveira disse que o caso “serve de referência para entender que o setor entrou nesta fase de juros altos já com balanços fragilizados”.
O professor Vicente Ferreira, do Instituto de Economia da UFRJ, aponta o crédito caro como fator central. “O varejo brasileiro ainda depende muito de crédito, e o crédito continua muito caro. Mesmo com a Selic caindo um pouco, isso praticamente ainda não teve efeito nas taxas de crédito para o consumidor. As famílias também estão no limite do endividamento, e os efeitos do Desenrola ainda vão levar algum tempo para serem sentidos na recuperação do poder de compra. É um caminho, mas ainda deve levar um tempo considerável”, afirmou.
Ferreira também apontou a pressão vinda do ambiente digital. “Quando falamos especificamente do varejo físico, a questão dos marketplaces, que vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado, torna esse cenário ainda mais difícil. Os juros altos não afetam apenas o crédito ao consumidor, mas também aumentam o custo de financiar os estoques das empresas.”
O fechamento de lojas físicas tem efeitos que vão além dos empregos diretos. Milene Dellatore, especialista em finanças e sócia-diretora do Grupo Mide, explicou que “uma loja de grande porte costuma gerar fluxo para restaurantes, estacionamentos, transportes e pequenos negócios do entorno. Quando ela fecha, há perda de renda e de circulação de consumidores naquela região.” Ela também ponderou que “as novas vagas eventualmente criadas pelo comércio eletrônico não compensam necessariamente os empregos perdidos nas lojas físicas. São funções diferentes, muitas vezes concentradas em centros logísticos localizados em outros municípios ou estados.”
O Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio) e o Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio) emitiram nota conjunta sobre a situação do setor:
“O fechamento das lojas e o crescente número de pedidos de falência e recuperação judicial são efeitos colaterais decorrentes da política de estabilização inflacionária. A política monetária ativa, com juros reais na casa dos 10% anuais, atinge a todos, mas preferencialmente os descapitalizados. Assim, as empresas que já passaram por dificuldades se tornam imprensadas pela ação do mercado. Nesse caso, a conjuntura parece que deprecia a capacidade de os agentes conseguirem sobreviver. Tanto empresas quanto famílias. O peso dos juros nas alturas encarece o capital e também afeta contrariamente o consumo, investimentos e crédito. O comércio, situado entre produção e consumidor final, ao fazer essa ligação, se retrai. A fragilidade do setor fica exposta ao fechar as portas, vez que não foi possível levar os produtos que a sociedade necessita. Isso acontece quando as vendas enfraquecem ou porque os custos operacionais e financeiros tornam-se altos e inviáveis.”
Silveira resumiu a mudança estrutural do setor: “Hoje o ponto de contato é o celular e o crédito está pulverizado em fintechs, bancos digitais e no próprio marketplace. A loja continua importante, mas deixou de ser o ativo que sozinho justifica o custo fixo.”
