Onze famílias da Vila Maranhão, em São Luís, deixaram suas casas nesta terça-feira (10) devido a um vazamento de fertilizantes da empresa Valen Fertilizantes e Armazéns. O ocorrido causou problemas de Saúde e forte odor químico na região.
A Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) investiga a contaminação e fará uma nova vistoria no local nesta terça-feira (10). Moradores relatam coceiras, piora de doenças respiratórias e desconforto constante desde a instalação da empresa no bairro.
“Meu sobrinho é asmático. Aí, por conta do fedor que ele está inalando… claro que prejudicou a asma dele. Hoje ele se encontra num leito de UTI, o que não é fácil para uma mãe. Não é fácil para ninguém”, disse a dona de casa Lucineide Catanhede.
Ao todo, 71 famílias afirmam sofrer com o despejo irregular de produtos químicos desde 2022, após a instalação da Valen Fertilizantes e Armazéns na comunidade.
Impactos do vazamento de fertilizantes na Vila Maranhão
A situação se agravou em 2 de fevereiro deste ano, quando um vazamento de sulfato de amônia e ureia atingiu duas ruas do bairro. Esses produtos, usados como fertilizantes, liberam partículas e gases tóxicos quando lançados de forma irregular no ambiente, aumentando os riscos de contaminação.
“Esses fertilizantes podem gerar resíduos gasosos, gases que, ao serem inalados, promovem problemas de saúde. Se ingeridos, ou com o contato permanente, podem gerar problemas de pele. Com o contato prolongado, podem ocorrer processos, inclusive de infecção, que podem gerar, posteriormente, câncer”, disse o geógrafo Marcelino Farias.
Moradores afirmam que os sinais de poluição aumentaram na área, com poeira constante, manchas na vegetação e água esverdeada perto das casas. Pequenos agricultores também relatam perda na produção.
“Essa poluição não está mais dando fruto nenhum no quintal. Abacaxi que eu plantava aqui já não deu mais. Quando nasce, ele é seco, murcho e não presta para nada. Os peixes no quintal — que eu tenho um tanquezinho de peixe no quintal — morreram 300 e poucos nesse mês passado”, disse o pescador Fábio Rogério.
Ações do Ministério Público e vistorias da Sema
O caso chegou ao Ministério Público. A Secretaria de Meio Ambiente vistoriou a área e coletou amostras de água, cujos resultados devem ser divulgados nesta semana.
Relatório elaborado pela Sema e pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Habitação (Semurh) aponta que o vazamento teve origem em maquinários recém-adquiridos pela empresa, armazenados sem proteção adequada. Com as chuvas, o material tóxico foi arrastado para fora do terreno e atingiu áreas da comunidade vizinha.
A empresa foi notificada a entregar documentos pendentes em até 48 horas, prazo já encerrado. A intervenção foi embargada por riscos à segurança. Também foi identificado que a canaleta de drenagem de águas pluviais não possuía sistema de tratamento, funcionando como via direta de poluição ambiental.
Na última semana, a Justiça determinou a retirada de todas as famílias da área de risco por ameaça à segurança. A empresa deverá fornecer água potável, equipe médica para exames toxicológicos e retirar as máquinas contaminadas.
Decisão judicial e obrigações da empresa
A Defesa Civil retirou as famílias da Rua Nossa Senhora de Fátima após relatos de mal-estar e forte odor químico. Elas devem ficar por pelo menos 30 dias em hotéis pagos pela empresa, enquanto o plano de contingência é apresentado. A delimitação da área de risco ficará sob responsabilidade da Defesa Civil e da Sema.
A moradora Andrelina contou que precisou sair às pressas da casa onde viveu a vida inteira. “Justamente foi a hora que a água correu, que a gente foi obrigado a sair das nossas casas correndo para não pegar, que estava sufocando a gente. Aí a gente teve que correr para cá pra cima imediatamente, porque a gente já estava se sentindo sufocado”, disse.
A empresa também deverá fornecer água potável adequada ao consumo humano no prazo de 24 horas. Em até cinco dias, terá de disponibilizar equipe multidisciplinar com médicos, psicólogos e assistentes sociais, além de custear exames clínicos e toxicológicos das pessoas potencialmente expostas.
O maquinário contaminado deverá ser retirado da área em até 24 horas, e barreiras físicas, como lonas e biomantas, devem ser instaladas em até 48 horas para conter a contaminação. A empresa terá ainda prazo de dez dias para apresentar um plano de contingência.
A Valen Fertilizantes e Armazéns está proibida de retomar obras ou atividades operacionais relacionadas a fertilizantes até obter autorização dos órgãos competentes. O magistrado determinou ainda a indisponibilidade de até R$ 5 milhões em recursos da empresa para garantir o cumprimento das medidas e a reparação integral dos danos. Em caso de descumprimento, foi fixada multa diária de R$ 10 mil por obrigação não atendida.
Obrigações do poder público e próximos passos
A decisão judicial estabelece que o Governo do Maranhão e a Prefeitura de São Luís realizem, de forma conjunta, em até 48 horas, o cadastramento socioeconômico das famílias atingidas e iniciem o monitoramento epidemiológico da região.
A Sema deverá emitir relatórios técnicos a cada 72 horas, enquanto o município terá prazo de sete dias úteis para apresentar laudos de potabilidade dos poços da área. Todos os documentos e registros produzidos a partir de janeiro de 2026 deverão ser preservados, e uma auditoria técnica independente deverá ser contratada em até 15 dias.
A Secretaria de Meio Ambiente afirma que identificou a fonte da contaminação, acompanha a retirada do material poluído e fará nova vistoria nesta terça-feira (10).

Informações: G1.





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