Uma nova abordagem para vacinas contra arbovírus, desenvolvida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade de Bonn, na Alemanha, protegeu camundongos contra os vírus chikungunya e mayaro em testes iniciais. A pesquisa, publicada em maio de 2026 na revista científica npj Vaccines, usa vírus geneticamente modificados que ativam o sistema imunológico sem desencadear uma infecção real.
Como funciona a vacina contra chikungunya da USP
A lógica por trás da tecnologia está na manipulação do processo de maturação do vírus. No caso do chikungunya, esse processo depende da remoção de uma proteína de superfície chamada E3, que cobre outra proteína, a E2, responsável por permitir a entrada do vírus nas células. Os pesquisadores modificaram geneticamente o patógeno para que essa remoção não ocorra naturalmente no organismo humano.
Danillo Lucas Alves Esposito, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP) e primeiro autor do estudo, explicou o mecanismo: “A ideia foi criar um vírus que entra na célula e ativa o sistema imune, mas é fisicamente incapaz de se tornar infeccioso. Assim, o imunizado não apresenta sintomas nem corre o risco de desenvolver a doença.”
Na prática, o vírus modificado passa por uma única rodada de replicação dentro do organismo e produz partículas que permanecem em estágio imaturo. Essas partículas não conseguem infectar novas células — funcionam apenas como antígenos, ensinando o sistema imune a reconhecer o patógeno.
Para ativar o vírus antes da aplicação da vacina, os pesquisadores utilizaram uma enzima chamada TEV, substituindo o ponto de reconhecimento original. Como essa enzima não existe no corpo humano, o vírus não consegue completar o ciclo infeccioso após a vacinação.
Vantagem sobre a vacina existente
Já existe uma vacina de vírus atenuado contra o chikungunya aprovada pelo FDA, agência americana que regula medicamentos, mas ela voltou ao mercado em 2025 com restrições. Esposito detalhou o problema: “Ela não é indicada para pessoas muito jovens, idosos, imunocomprometidos ou que têm algumas comorbidades, pois pode gerar efeitos adversos.”
A nova tecnologia da USP busca contornar essa limitação. Segundo o pesquisador, a abordagem permite “uma proteção robusta sem risco de efeitos colaterais, ampliando o uso também para pessoas imunossuprimidas e idosos.”
Potencial para outros vírus
Nos testes com camundongos, a resposta imunológica gerada pela vacina contra chikungunya foi capaz de neutralizar também o vírus mayaro, um arbovírus menos conhecido, mas relacionado. Para os pesquisadores, isso indica que a plataforma pode ir além.
Esposito afirmou que a tecnologia tem alcance mais amplo: “Como vários arbovírus dependem da furina para se tornarem infecciosos, a plataforma pode ser adaptada para zika, febre amarela e até variantes do SARS-CoV-2, por exemplo.”
A furina é a enzima natural presente no organismo humano que normalmente remove a proteína E3 e permite a maturação do vírus. Ao substituir o ponto de reconhecimento dessa enzima pela TEV, os pesquisadores criaram uma chave que só funciona fora do corpo humano.
Veja os arbovírus que podem ser alvo da plataforma:
- Chikungunya
- Zika
- Dengue
- Febre amarela
- SARS-CoV-2
A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio dos projetos de números 17/19137-7, 18/11939-0 e 23/09619-5. A avaliação da vacina em humanos ainda está em andamento.
