Martinha Brito, influenciadora de Viçosa do Ceará com Fibrodisplasia Ossificante Progressiva (FOP), registrou boletim de ocorrência na Delegacia de Viçosa do Ceará após receber comentários ofensivos nas redes sociais. A Polícia Civil do Ceará abriu inquérito para investigar o caso.
Em nota, a corporação informou:
A Polícia Civil do Ceará informa que apura uma denúncia de crime de injúria e que a Delegacia de Viçosa do Ceará instaurou um inquérito para investigar o caso.
A denúncia foi feita no fim de abril. A pessoa investigada é do Rio de Janeiro. Martinha relatou o episódio com clareza: “Eu fui xingada na internet com dois palavrões de baixo calão. Eu achei muito pesado.”
Aos 32 anos, ela recebeu o diagnóstico correto de FOP em Sobral, cidade do interior do Ceará. Os primeiros sintomas surgiram aos 6 anos, após uma vacina no músculo do braço. “Eu nasci uma criança normal e, com seis anos, após uma vacina no músculo do braço, esse problema se desenvolveu. Só que eu já nasci com ela, mas ninguém sabia”, contou.
A progressão foi rápida. “Começou no pescoço, depois no braço e, aos 16 anos, eu já não conseguia mais sentar, já me locomovia com dificuldade”, disse. Hoje, Martinha tem mais de 200 mil seguidores no Instagram e usa o espaço para informar sobre a doença. “Eu comecei a publicar meus vídeos, a aprofundar mais o conhecimento sobre a minha patologia. Assim, eu fui ganhando seguidores. Hoje, para mim, é uma honra mostrar sobre essa condição que é rara e também motivar as pessoas a continuar lutando”, afirmou.
Ela também cursa serviço social e luta pelo reconhecimento formal da doença junto ao sistema de saúde estadual. “Estou lutando para que o meu CID seja registrado e eu possa ser reconhecida pela Secretaria de Saúde do Ceará como uma pessoa com doenças raras”, disse. A Secretaria da Saúde do Ceará não se manifestou sobre o pedido.
O que é FOP e por que o diagnóstico de Martinha Brito demorou décadas
A FOP atinge 1 a cada dois milhões de pessoas. No Brasil, há entre 120 e 150 casos estimados, o que coloca o país entre os que têm o maior número de pacientes registrados no mundo. O médico ortopedista Leonardo Colares explica o mecanismo da doença: “É uma ossificação dos tecidos, tipo, músculo, tendão, ligamento. Aqueles tecidos que nos auxiliam na locomoção terminam sofrendo um processo de ossificação.”
Qualquer trauma pode desencadear uma crise. “Quando o paciente tem um insulto qualquer, seja uma vacina, um trauma ou uma cirurgia, isso causa uma resposta inflamatória. A partir dessa inflamação acontece a ossificação”, detalhou Colares. O tratamento é multidisciplinar e não interrompe a progressão. “A gente não consegue parar a doença, estacionar. A gente consegue retardar a progressão”, disse o médico.
Martinha descreve a condição com precisão: “Hoje eu sou uma pessoa rara. Tenho uma patologia que não tem cura. Os músculos viram ossos, os nervos ficam enrijecidos e a pessoa vai perdendo toda a mobilidade, transformando o corpo como se fosse uma estátua viva.”
Brasil no mapa global da FOP
A médica dermatologista Patrícia Delai fundou a associação FOP Brasil nos anos 2000, depois de perceber a dispersão dos pacientes pelo país. “Nós sentimos a necessidade de criar uma associação, para que nós estivéssemos unidos de forma legal, pudéssemos fazer parte de estudos clínicos, receber doações, tivesse uma representatividade. Hoje nós contamos com mais de 100 pacientes no Brasil. A gente sabe que deve ter mais gente que é desconhecida”, afirmou.
Em 23 de abril de 2006, uma família brasileira participou da descoberta do gene que causa a FOP. “Nesse encontro nós conseguimos fazer estar presente uma família brasileira que foi crucial para a descoberta do gene que causa essa doença. Então, o Brasil fez parte de uma descoberta que no futuro vai ser a resposta para muitas doenças”, disse Delai.
O governo brasileiro instituiu o Dia da Conscientização da Fibrodisplasia Ossificante em 2022. Em 2025, o presidente Lula sancionou lei que inclui o teste de FOP na triagem neonatal. “O Brasil é o único país a ter oficializado o dia da FOP e a ter também oficializado a observação dos dedos grandes do pé ao formar no nascimento”, afirmou a médica.
Para Martinha, o ativismo vai além da própria história. “Para lutar não só por mim, mas por outras pessoas com vulnerabilidade, que não têm conhecimento, que não sabem onde buscar”, disse.
