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Irrigação: progresso ou destruição do meio ambiente?

Edição e postagem: José Augusto Oliveira, em 30-04-2016 11:02 | Última modificação: 10-09-2017 18:59
Hospital de Olhos

É certo que a irrigação continuará a ser a maior consumidora de água no mundo, mas, por outro lado, também é certo que o aumento na produção de alimentos necessário para alimentar a população mundial dependerá dela.

A agricultura terá grandes desafios neste novo milênio, mas, sem dúvida, o maior deles será garantir um suprimento adequado e regular de alimentos para a sociedade com o menor consumo de água possível. Tal tarefa, entretanto, não é simples e se agrava ainda mais quando se consideram os impactos que as mudanças climáticas terão sobre a agricultura de maneira geral. Por exemplo, estudos indicam que um aumento de 3°C na temperatura do ar poderá elevar, de maneira geral, as necessidades de irrigação em 15%, e, ainda, se este aumento na temperatura for acompanhado por uma redução na precipitação de 10%, poderá haver uma elevação nas necessidades de irrigação da ordem de 26%.

A importância de tal constatação se torna ainda mais grave quando se consideram os seguintes aspectos: apenas 17% de toda a área cultivada no mundo é irrigada, entretanto estas áreas produzem, atualmente, cerca de 40% de todo alimento que é produzido no mundo; 70% das águas derivadas dos cursos de água para uso humano são para fins de irrigação, destas aproximadamente metade se perde no sistema sem ser efetivamente utilizada pela cultura; aproximadamente 11,6% do total de água disponível no planeta já está sendo utilizado, já se apontando para uma insustentabilidade da atual tendência de utilização da água.

Nos Estados Unidos, em 1900, quatro em cada dez trabalhadores se encontravam no campo. Atualmente, a proporção é de três em cada cem. Em relação ao Brasil, a proporção talvez seja diferente, mas a tendência de migração de pessoas do campo para as grandes cidades é a mesma. Tal fato teve e ainda tem influência direta sobre o destino das águas derivadas dos cursos de água, e é um dos principias responsáveis pelo surgimento e crescimento da competição pelo uso da água entre os centros urbanos e a zona rural. Alguns estudos reportam que haverá um aumento de 71% da água demandada para consumo doméstico entre 1995 e 2025. Em alguns países, como a China e os Estados Unidos, já se nota uma substancial transferência de água da agricultura para as cidades, as quais estão dispostas a remunerar melhor pelo seu uso.

Relatório recente da FAO projeta que a produção de alimentos terá que aumentar cerca de 60% a fim de suprir as novas demandas nutricionais da sociedade e a uma população mundial que aumenta cerca de 80 a 85 milhões de pessoas a cada ano. Neste contexto a irrigação terá um papel fundamental, uma vez que, segundo o mesmo relatório, 80% do aumento de produção necessária para alimentar a população será proveniente das áreas irrigadas. Todavia a agricultura irrigada terá grandes desafios no futuro. Nesta nova era ao invés de se pensar em produzir mais a partir de cada hectare plantado ter-se-á que produzir mais a partir de cada gota de água derivada para a agricultura. Para isto a água destinada para irrigação terá que ser manejada de maneira mais racional, não só pensando em extrair mais a partir de cada gota, mas também em liberar certa quantia de água para outros usos. Com isto espera-se que a maneira como a irrigação está sendo vista pela sociedade mude, ou seja, que ela passe a ser vista não como uma competidora pelo uso da água, mas como um componente essencial para produção de alimentos e fibras.

Infelizmente, grande parte dos sistemas de irrigação apresentam baixa eficiência na utilização da água, sendo comum sistemas de irrigação que operam com eficiência da ordem de 40%. Alguns estudos reportam que aproximadamente metade do aumento na demanda de água que ocorrerá até 2025 pode ser suprida melhorando-se a eficiência dos sistemas de irrigação. Para se atingir tal meta, entretanto, faz-se necessário o desenvolvimento de novas técnicas de manejo, de ferramentas computacionais e de novas tecnologias de irrigação. A aplicação de água de forma precisa é uma alternativa para a conservação de água e para a otimização da utilização de nutrientes.

Em virtude disto torna-se evidente que a irrigação continuará a desempenhar um papel de fundamental importância para a sociedade. Todavia para que ela continue sendo vista como um símbolo de progresso e de crescimento e não como mais um fator de destruição do meio ambiente, e também para que se possa sair de uma era de exploração dos recursos naturais para uma era de manutenção dos mesmos, mudanças significativas e urgentes na forma de manejar os sistemas de irrigação deverão ser implementadas, prevalecerá a utilização de sistemas com eficiência de aplicação superior a 90%, sendo utilizados preferencialmente sistemas de irrigação localizada. Sem essas mudanças na forma de usar e manejar os recursos hídricos, por volta do ano de 2025, cerca de 67% da população mundial estará enfrentando sérios problemas de escassez de água.

Irrigação

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José Augusto S. de Oliveira (Cabeça)
Técnico Agrícola
Especialista em Irrigação e Drenagem

Membro INOVAGRI
Filiado ABID

Colaborador GREENPEACE BRASIL

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