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Poeta Alberto Da Costa e Silva recebe o Prêmio Camões 2014 na Fundação Biblioteca Nacional

Edição e postagem: Denison Duarte, em 29-10-2014 22:30 | Última modificação: 29-10-2014 22:37
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Em cerimônia realizada na tarde desta quarta-feira, na Fundação Biblioteca Nacional, o poeta, diplomata, ensaísta e historiador brasileiro Alberto da Costa e Silva, de 83 anos, recebeu o Prêmio Camões 2014. Considerada a mais importante láurea dedicada a autores de língua portuguesa, o Camões, instituído pelos governos brasileiro e português em 1988, foi entregue pelas mãos do secretário de Estado da Cultura de Portugal, Jorge Barreto Xavier, e da secretária executiva do ministério da Cultura, Ana Cristina Wanzeler, que representou a ministra da Cultura, Marta Suplicy, que não pode comparecer ao evento.

— Sou grato aos que me outorgaram o prêmio, assim como àqueles que não contestaram a escolha do júri — disse Costa e Silva. — Embora convicto da injustiça que são os prêmios, recebo o Camões com alegria. Foi uma época difícil a que me deram para viver. Um tempo em que a utopia se revelou pesado, em que as esperanças foram traídas. Mas fico feliz em ter minha obra reconhecida, ouvir os presentes dizendo que fui poeta, e quem sabe fui.

Um dos maiores pesquisadores e referências dos estudos africanos no Brasil, Costa e Silva recebeu a homenagem no mês em que se celebra o dia da Consciência Negra, no próximo 20 de novembro. A longeva e profunda relação que o autor estabeleceu com a África foi repassada por Costa e Silva, que pode conhecer o continente pela primeira vez nos anos 1960, época em que atuava profissionalmente como diplomata.

— Nesta época, o que aconteceu é que me apaixonei pelo traçado da África, e me ocupei com devoção integral ao continente africano nas horas cansadas após o trabalho diário de diplomata, ao qual também devotei todo meu empenho — disse. — Me sinto próximo, assim, ao enorme Camões, poeta que também viajou pelo litoral africano, viveu intensamente o seu tempo, também foi um historiador a seu modo e conseguiu unir memória e imaginação. Sinto que, talvez, não escrevamos apenas para justificar a nossa existência, nem para registrar o que vivemos, mas para que não se percam as imagens que um dia vimos e que jamais se repetirão.

A escolha do vencedor da 26ª edição do prêmio foi anunciada em maio passado, em Lisboa, pelos integrantes do júri, presidido por Affonso Romano de Sant’Anna e formado pela professora Rita Marnoto, pelo jornalista José Carlos Vasconcelos, e pelos escritores Antônio Carlos Secchin, José Eduardo Agualusa e Mia Couto, que venceu o Prêmio em 2013.

— O júri não teve qualquer dificuldade em chegar a seu veredito — contou Sant’Anna. — Houve um movimento espontâneo e unânime em direção ao Alberto, que surgiu dos representantes da África ali presentes, e só nos coube acolher e aceitar o seu nome.

Formado pelo Instituto Rio Branco em 1957, Costa e Silva foi embaixador em diversos países da Europa, até assumir o posto na Nigéria e no Benim. Durante os anos 1960 e 70, ele se lançou a inúmeras viagens por países como Angola, Etiópia, Costa do Marfim, Camarões, Togo, Gabão, Guiné, Senegal, Libéria, entre outros. Nessas missões, acumulou informações culturais importantes, que mais tarde lhe serviram de base para a construção de obras significativas para os estudos africanos no Brasil, como “A enxada e a lança: a África antes dos portugueses” (1992), “A manilha e o libambo: a África e a escravidão” (2002), assim como “Um rio chamado Atlântico” (2005), em que reuniu textos sobre a relação entre Brasil e África.

— Alberto é um grande historiador da África, e da África no Brasil, como ele gosta de dizer — disse o pesquisador João José Reis, em mesa-redonda que precedeu a cerimônia de entrega do prêmio. — Alberto se diz um viciado em África, fruto de um fascínio que começou cedo, a partir da leitura de “Casa Grande e Sensala”, de Gilberto Freyre. No decorrer do tempo se tornou um mestre da História afro-brasileira e da História africana, que hoje, tardiamente, se fez disciplina obrigatória nos currículos escolares, assim como seus livros são referências obrigatórias nas salas de aula. Costa e Silva é um verdadeiro intérprete do passado, e não só um narrador. Ele alia conhecimento profundo, estilo narrativo cativante, capacidade de síntese, erudição e habilidades diversas que o tornaram o grande poeta da historiografia brasileira.

No ano passado, Costa e Silva lançou sua mais recente obra, “Imagens da África” (Penguin/Companhia das Letras). Nela, o historiador reuniu fragmentos de mais de 80 relatos de cientistas, exploradores, aventureiros, missionários e burocratas estrangeiros que passaram pela África desde a Antiguidade até o século XIX. No livro, o historiador evidencia o desconhecimento do olhar estrangeiro em relação à África. Apesar de não ir até os dias de hoje, Costa e Silva acredita que os estereótipos do passado ainda persistem, e com o tempo assume novas formas, mas manifestando conteúdo semelhante, o comportamento “de quem se considera melhor, mais racional, de quem vê o outro num estágio inferior ao seu. Ainda hoje, os ocidentais chegam à África achando que está tudo errado e que são eles que vão consertá-la”, disse o historiador em entrevista recente ao O GLOBO.

Ocupante da Cadeira número 9 da Academia Brasileira de Letras, Costa e Silva é o 11º escritor brasileiro consagrado com o Camões, tornando o Brasil o país com mias vencedores do prêmio. Antes de Costa e Silva já haviam sido homenageados autores como Dalton Trevisan, Ferreira Gullar, Autran Dourado, João Cabral de Melo Neto e João Ubaldo Ribeiro.

Fonte: OGlobo

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